"Sentimento é de dever cumprido"
Nélson Veríssimo fez a análise de uma temporada 2025/26 da
Equipa B do Benfica que ficou marcada por um contexto de forte renovação de um grupo repleto de juventude, que foi crescendo ao longo do tempo. Em entrevista à BTV, Nélson Veríssimo abordou ainda a ligação com a Equipa A e com a restante formação.
Segundo o treinador encarnado, esta Liga 2, em que os encarnados terminaram na 10.ª posição (44 pontos), foi uma das mais competitivas dos últimos anos. O técnico deixou um elogio aos jogadores: "Tiveram a capacidade de se adaptar, de crescer e de aprender."
BALANÇO GERAL DA ÉPOCA 2025/26 "Acima de tudo, o sentimento que temos é de dever cumprido. Gostava, fruto desse sentimento, de agradecer aos nossos adeptos pelo apoio que nos deram ao longo desta caminhada difícil. Uma palavra também ao staff da Equipa B, à equipa técnica, assim como aos jogadores por aquilo que foram fazendo. Foi uma época verdadeiramente difícil. Tínhamos consciência disso, desde logo pela renovação que fizemos de um ano para o outro. Se a memória não me falha, transitaram seis ou sete jogadores de uma época para a outra. Até os jogadores com mais experiência de Liga 2 tinham apenas o equivalente a quatro jogos, enquanto todos os restantes apresentavam ainda menos experiência. Tratou-se, por isso, de um ano de reciclagem do plantel, marcado pela entrada de muita juventude, bem como pela ausência de experiência competitiva neste contexto. Curiosamente, foi também uma das épocas mais competitivas dos últimos anos. Para se ter uma noção, foram necessários 41 pontos para garantir a manutenção, algo que só se tinha verificado em 2017/18. Nas restantes épocas, em regra, 35, 36 ou 37 pontos bastavam. O equilíbrio entre equipas foi enorme, ao ponto de, em vários jogos, uma pessoa que não tivesse a classificação à frente poderia não distinguir claramente quem estava na frente ou na parte de baixo da tabela. No geral, sinto que todos fizemos um trabalho diferenciado, pelo que temos de estar muito orgulhosos do que foi alcançado."
GERAÇÃO MUITO JOVEM E SEM EXPERIÊNCIA
"Num primeiro momento, tratava-se sobretudo de acreditar que havia valor e potencial. O que é que sentimos que eles não tinham? Aquilo que procuramos quando os jogadores competem na Liga 2: experiência competitiva. Há qualidade, há valor, porém não havia ainda o conhecimento do jogo neste contexto tão exigente. Tivemos jogadores a sair diretamente do Campeonato Nacional Sub-17, passando de imediato para a Equipa B, assim como atletas provenientes dos Sub-19 e Sub-23. Poucos jogadores transitaram de um ano para o outro, o que fez com que o contexto fosse totalmente novo. Jogar entre pares é uma coisa; jogar contra homens é completamente diferente. A experiência, maturidade e leitura de jogo dos adversários obrigam os nossos jogadores a passar mais tempo em momentos do jogo aos quais não estavam habituados. Nos escalões de formação, em muitos jogos, passam mais tempo com bola do que sem ela. Aqui, na Liga 2, acontece precisamente o contrário: passam muito mais tempo a defender do que a atacar."
A REALIDADE DA LIGA 2
"É curioso perceber o que é diferente. Quando se pergunta a jogadores como Banjaqui, Miguel Figueiredo ou Gonçalo Moreira, a resposta é clara: 'Míster, eles chegam mais rápido e encostam mais forte…' É esse tipo de adaptação que tiveram de fazer, aliada a uma enorme capacidade de aprendizagem, de forma a se ajustarem rapidamente às exigências da Liga 2. Paralelamente a esse processo, havia uma necessidade constante de somar pontos, porque, por mais importante que seja potenciar talento e desenvolver jogadores, tudo ganha outro sentido quando se consegue competir e vencer ao fim de semana. A estratégia passou por, desde a pré-época, introduzir maior complexidade nos treinos e nos jogos, criando situações que obrigassem os jogadores a lidar com dificuldades semelhantes às da competição. O objetivo era que, na primeira jornada em Chaves – momento marcante da época – a equipa estivesse preparada para competir e dividir o jogo com o adversário."
CHAVES COMO MOMENTO Marcante "O jogo com o Chaves (1-1) é marcante porque sentia-se a desconfiança dos próprios jogadores. Eles não sabiam até que ponto estariam preparados para dar resposta à exigência do jogo, naquele momento. E nós íamos defrontar um candidato à subida de divisão. Era daquelas equipas que tinham sido montadas para tentar subir. E era um jogo fora. Portanto, havia dúvida, havia desconfiança. O nosso papel enquanto treinadores foi prepará-los da melhor forma possível para que eles, naquelas questões em que não eram tão fortes – nomeadamente nos momentos da transição defensiva, dos duelos, da agressividade, da reação à perda, no momento da organização defensiva – conseguissem competir. Porque depois, com bola, o talento está lá. Mas não era naquele momento uma preocupação tão vincada da nossa parte. Foi trabalhar esses aspetos, mas também trabalhar muito o lado emocional, o lado mental, no sentido de os fazer acreditar. Porque também nós acreditávamos nisso. Acreditar que podíamos não ganhar, mas tínhamos capacidade para chegar a Chaves e dividir o jogo. Felizmente isso aconteceu. Foi um jogo difícil. Nós marcámos primeiro. Depois o Chaves consegue empatar. Num jogo com duas partes diferentes. Mas terminando o jogo, ficou a sensação: 'se conseguimos fazer isto aqui em Chaves, então esta equipa vai ter margem de crescimento.' Aquele resultado acabou por ser importante mais numa perspetiva mental, porque nos fez acreditar que tinham essa capacidade de dividir o jogo com uma equipa de Liga 2, principalmente um dos candidatos a subir de divisão."
DORES DE CRESCIMENTO
"Tivemos mais seis, sete jogos em que não conseguimos a vitória. Nós sentíamos que os jogadores estavam a crescer, estavam a evoluir individualmente, coletivamente também, mas depois a primeira vitória acabou por chegar num jogo difícil, em Santa Maria da Feira. Aí traduziu-se obviamente num boost de confiança, que conseguimos catapultar para o resto do Campeonato. Nós conseguimos a vitória, depois recebemos o Paços de Ferreira e ganhámos 2-1. Depois temos um jogo em Faro em que também aprendemos muito. Diria que também é um dos pontos-chave do Campeonato. Aos 30 minutos estamos a ganhar 0-3 e depois acabamos por perder 4-3. E a verdade é que quando nós sofremos o segundo golo e sofremos o terceiro, a sensação que nós tínhamos no banco é que muito dificilmente íamos conseguir ganhar aquele jogo e até pontuar. Mas também tínhamos a convicção e a perceção que fazia parte das chamadas dores de crescimento. Nós sabíamos que o processo no início não ia ser fácil. Sabíamos que os jogadores iam necessariamente ter espaço para errar, para competir, para crescer, para evoluir. Isso exigiu da parte deles muita capacidade de aprendizagem, capacidade de adaptação ao contexto competitivo e muita resiliência. Porque saber lidar com a dificuldade, saber lidar com o erro não é fácil. Estar jogos consecutivamente sem ganhar, sem pontuar, também exige essa resiliência. Eles vêm de contextos competitivos em que ganham mais vezes do que aquelas em que isso não acontece. Aqui na Liga 2, no somatório das 34 jornadas, entre vitórias, empates e derrotas, a coisa fica mais equilibrada. Mas eles tiveram essa capacidade de se adaptar, de crescer e de aprender."
O PONTO DE Viragem "À 12.ª jornada – um momento-chave na época – vamos jogar a Leiria (2-2) e, nesse momento, estamos em último lugar. Vamos jogar contra uma das equipas candidatas à subida de divisão. Um estádio com 10 mil pessoas, e demos uma resposta fantástica, a jogar com menos um. Depois, a partir daí, somamos uma sequência de 18 jogos em que só não pontuámos em três. Foi a partir daí que tivemos um crescimento mais sustentado, em termos individuais, coletivos, mas também sustentado nos pontos. Isso acabou por nos dar conforto para abordar o resto do Campeonato. Temos de ter consciência de uma coisa: olhando para esta época, nós tivemos 20 estreias na Liga 2. Números redondos, 20 estreias. Tivemos 39 jogadores que foram utilizados. Mais uma vez, olhando para as 18 equipas da Liga 2, fomos a equipa que mais mexeu nos jogadores, mais rotação fez, com menos consistência face ao contexto competitivo. Nunca houve propriamente aquele grupo fechado. Se olharmos para o onze inicial, só o Diogo Prioste é que tinha realmente números que nós pudéssemos dizer que era um jogador de Liga 2, que tinha ritmo competitivo de Liga 2. Os outros seis tinham feito a estreia e os outros quatro tinham poucos jogos. Portanto, tinha de haver aqui margem para eles crescerem, para evoluírem, para terem oportunidade. É difícil dizer que foi exatamente no jogo do Feirense, até porque nesse jogo fizemos uma mudança estrutural naquilo que eram os posicionamentos da equipa. Numa perspetiva mais de garantir alguma consistência defensiva à nossa equipa, mas também para potenciar o jogo ofensivo. Digamos que o ponto em que nós sentimos que a equipa já estava com outra capacidade de resposta foi a partir do jogo com o Leiria. A forma como nós, naquele momento de dificuldade, a jogar contra um dos candidatos à subida e estando na última posição, abordámos o jogo sem medos, sem complexos, sem jogar como uma equipa que estivesse em último lugar. Claro que depois o resultado acabou por nos dar segurança. Depois todo o trajeto que fizemos daí para a frente. Os pontos foram dando uma almofada confortável à equipa para continuar a desenvolver-se. Se eu tivesse de escolher um momento, diria que foi a partir desse jogo com o Leiria em que sentimos que a equipa está a crescer de uma forma sustentada e ainda com muita margem de crescimento."
LIGAÇÃO COM A EQUIPA A
"[Correu muito bem] O elo de comunicação mais diário era feito entre mim e o João Tralhão, uma pessoa também com passado aqui na casa. O míster Mourinho também muito presente naquilo que é o dia a dia da Equipa B, seja nos treinos, seja no acompanhamento dos jogos, seja na procura de informação relativamente aos jogadores. Era algo que ele procurava sempre estar a par. Nessa lógica de ligação, a Equipa B é sempre uma equipa de suporte à Equipa A. Seja naquilo que é a gestão dos jogadores para as necessidades do treino, seja naquilo que é mais visível, que é chamar jogadores da Equipa B para integrar convocatórias, e alguns acabaram até por se estrear na equipa principal – em número considerável. Portanto, isso também é sinónimo da qualidade dos jogadores, mas também do acreditar no trabalho que é feito. Diria que, globalmente, foi muito positivo e esse é o caminho que nós gostamos de promover aqui."
A LÓGICA DA ESCADINHA
"Também temos a outra fase, que é a ligação com os Sub-23 e com os Sub-19. Isto acaba por funcionar um bocadinho numa lógica de escadinha. Quando há necessidades da Equipa A chamar jogadores para treino, os jogadores naturalmente vão. Depois nós ajustámos com os jogadores dos Sub-23, e, nos Sub-23, o Vítor também solicita ao Luís Araújo jogadores aos Sub-19. Portanto, é esse processo normal de relação entre as diferentes equipas. Sendo que o patamar mais diferenciado é a Equipa A e temos de garantir que, em todos os momentos, face às necessidades da Equipa A, os jogadores cheguem lá nas melhores condições."
OS DESAFIOS INTERNACIONAIS: YOUTH LEAGUE, PLIC E Seleções "Eu recordo-me desta fase inicial que nós tivemos da nossa Liga 2, em setembro, outubro e novembro, com as seleções. Nós tínhamos um elevado número de jogadores envolvidos nas seleções. Depois, quando vinham das seleções, também estavam envolvidos nos jogos da Youth League. Fruto também desta média de idades mais baixa que tivemos nesta época, tínhamos muitos jogadores envolvidos nas seleções, o que é um ótimo sinal. Também tínhamos muitos jogadores envolvidos na Youth League. Isso acabava por nos criar alguns constrangimentos na preparação para o jogo seguinte da Liga 2. Em alguns momentos, o que acontecia era nós juntarmos a equipa que ia jogar no dia seguinte. Isso exigiu, neste ano, ao contrário dos anos anteriores, que nós fôssemos muito objetivos, muito específicos na mensagem que queríamos passar para abordar o jogo seguinte. Criou-nos desafios diferentes daqueles que tínhamos no passado, mas acabou também por ser algo motivador. Exigiu mais da nossa parte, no sentido de sermos mais seletivos e mais criteriosos na forma como escolhíamos o exercício para o treino e na forma como passávamos a informação."
SEMPRE A JOGAR À BENFICA
"Tenho de tirar o chapéu aos nossos jogadores pela capacidade de entendimento dos posicionamentos que nós queríamos, seja a atacar, seja a defender. Eles tiveram essa capacidade com pouco tempo de treino, sem nós conseguirmos estabelecer as rotinas que idealmente gostaríamos. Conseguiram tentar reproduzir em jogo aquilo pedido na véspera. Obviamente nós tivemos o nosso contributo, mas depois, lá dentro, são as relações que eles estabelecem entre si, a forma como se relacionam, como são competitivos e como se atiram para o jogo. Isto olhando para jogadores com uma média de idade baixíssima. Se nós tivermos em linha de conta as 34 jornadas que fizemos, só em dois jogos é que não fomos a equipa mais nova da Liga 2. Foi à 6.ª e à 33.ª jornada. Em todas as outras 32 jornadas apresentámos sempre o onze inicial mais jovem da Liga 2. É por estes motivos que eu digo que nós temos de ter a perceção e temos de valorizar o trabalho que foi feito por todos, especialmente pelos jogadores. O que nós sentimos da parte deles foi uma grande vontade em competir. Uma grande vontade, em momentos de dificuldade, de dar o passo em frente e sair deles. Uma grande vontade, acima de tudo, de representar bem a camisola do Benfica. O jogar à Benfica, que tanto se fala, esteve sempre representado nas 34 jornadas que fizemos nesta época."
ÉPOCA MAIS DESAFIANTE DA Carreira "Não queria utilizar a palavra difícil. Vou utilizar a palavra desafiante. Face à mudança de ciclo que tivemos, olhando para a renovação da geração, para os jogadores que tivemos, olhar também para aquilo que foi a competitividade da Liga 2, e para aquilo que, também, foi o percurso que fizemos ao longo desta época. Os jogadores estiveram envolvidos nas seleções nacionais, na Youth League, e depois os tais jogos que fizemos imediatamente a seguir. Acabou por exigir da minha parte, da minha equipa técnica e também do staff técnico uma postura diferenciada face ao contexto. Isto acabou por valorizar o trabalho. Por isso é que eu digo que foi claramente – não digo a mais difícil – porque acho que todas as épocas são difíceis, mas diria que foi a época mais desafiante para mim como treinador principal."
"QUEM É QUE VEM A SEGUIR?"
"Acho que a seguir vêm todos. É difícil responder a essa pergunta. Há muita qualidade, há muito potencial. Acho que, de uma forma geral, o que é importante para mim é chegar ao final desta época e olhar para todos eles e perceber se eles cresceram ou não, se todos evoluíram ou não. Há jogadores que cresceram e evoluíram muito. Não querendo estar a individualizar, mas a capacidade de crescimento que o Banjaqui... Eu confesso que às vezes olho para eles e estou a olhar para eles como homens. E nós queremos tratá-los como homens. E provavelmente as pessoas também os comparam como homens, mas são jogadores jovens, com muito potencial, mas são jogadores jovens. E olhar para a forma como o Banjaqui terminou a Liga 2… Olhar para o Miguel Figueiredo e para a forma como ele terminou. O José Neto, que numa fase inicial não estava com a Equipa B, mas depois acabou por integrar. O Gonçalo Moreira. Muitos outros, que depois volto a ser injusto. O Diogo Ferreira também fez uma grande época. Depois de voltar aqui a individualizar, todos eles acabaram por crescer. Outros não tanto, fruto, se calhar, também da ausência de mais regularidade competitiva que podiam ter tido e não tiveram. Mas o sentimento que tenho é de crescimento, de evolução dos jogadores, de crescimento e evolução da equipa. Isso é o que o treinador acaba por ter mais satisfação: olhar para trás e perceber que, num Campeonato tão competitivo como o desta época, numa altura em que renovámos a equipa, com pouca experiência, com a média de idades mais baixa, a capacidade de crescimento que eles tiveram foi notável. É um caminho que está a ser traçado. Obviamente que no final desta época, olhando para trás, nós temos jogadores mais preparados, mais prontos. Mas o caminho não está terminado e eles têm de continuar. Têm de ser muito ambiciosos individualmente. Porque há uma coisa que o treinador não lhes consegue dar. O treinador consegue-lhes dar contexto de treino, consegue falar com eles, consegue influenciá-los de uma forma positiva, mostrando-lhes o caminho que têm de seguir para se tornarem melhores. Mas eles próprios é que têm de colocar aqueles 10% extra. Que é serem exigentes acima de tudo. Exigência máxima com eles. E aproveitar todos os momentos que têm no treino e no jogo para serem melhores. Só eles próprios é que se podem dar a si próprios essa capacidade."














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