"Vamos lá para ganhar"
Na antevisão do Sporting-Benfica deste domingo, 19 de abril, válido para a 30.ª jornada da Liga Betclic , José Mourinho reconheceu a imprevisibilidade dos dérbis, mas garantiu que a ambição das águias de conquistar os três pontos é inegociável.
Assumindo o prazer de jogar e preparar embates desta dimensão, o treinador das águias revelou que o trabalho realizado durante a semana e o comportamento da equipa no Campeonato lhe transmitem confiança para a deslocação ao Estádio José Alvalade.
José Mourinho também prometeu que, independentemente do resultado e da pontuação, o Benfica vai dar tudo até ao término da Liga Betclic para estar à altura da natureza e da história do Clube.
Sobre as opções para o jogo, o técnico confirmou a disponibilidade de Aursnes e Richard Ríos, adiantando que Tomás Araújo também deverá estar em condições de jogar.
O Presidente Rui Costa já falou esta semana sobre este dérbi. Disse que um dérbi é sempre um dérbi e acaba por transcender um pouco os momentos que as equipas estão a atravessar. Concorda com esta ideia? E de que forma o Benfica está a abordar este jogo? Concordo. Um dérbi é um dérbi. Não há necessidade de motivações extra, independentemente de classificações, independentemente de objetivos. Trata-se de um jogo importante de Campeonato, obviamente que sim, mas se fosse no verão, no Torneio do Algarve, seria sempre um dérbi também. É como eu disse, gosto de os jogar, sei das dificuldades, mas também sei do prazer que é jogar jogos desta dimensão. Objetivos são os de sempre: ganhar e, obviamente, respeitar a natureza, respeitar a essência daquilo que é um dérbi. Já disse, e repito, que são dos jogos que menos preocupam ao nível motivacional, ao nível do foco, da atitude, da vontade de jogar. São os jogos que, a esse nível, preocupam menos.
Tenho duas perguntas para lhe fazer. Uma é muito direta, a outra é um bocadinho mais filosófica. A direta é perguntar-lhe se nos pode dar o onze inicial para amanhã. E a mais filosófica é, olhando para a época do Benfica, não é muito comum ver uma equipa sem derrotas chegar a esta fase do Campeonato e não estar no 1.º ou, no limite, no 2.º lugar. Como é que o José Mourinho encara esta invencibilidade do Benfica? Se é a parte doce da época ou se, por outro lado até, é a parte amarga da temporada?
É filosófica mesmo. Não, a equipa não lhe dou. O Rui [Borges] também não dá a dele. Se ele quisesse trocar, eu trocava sem qualquer problema. Não é que veja grande vantagem em escondê-la ou não, mas não vou dar. Eventualmente também não haverá assim tão grandes surpresas que se justifique este meu secretismo, digamos assim, mas não, não vou dar. A situação das não derrotas, há muitas maneiras de olhar para ela, um bocadinho como a filosofia, não é? Eu diria – aliás, eu já disse – que há empates daqueles que nós tivemos que não enobrecem, que não fazem do Benfica maior do que aquilo que é, que não fazem de nós profissionais melhores do que aquilo que somos. Há empates que, pelo contrário, foram sentidos como derrotas. Nós tivemos alguns empates que foram sentidos como derrotas. Aqueles em que desperdiçámos as vitórias nos últimos minutos, aqueles em que, como no Casa Pia, não fizemos um bom jogo. Depois, temos outros empates em que nos sentimos verdadeiramente prejudicados e que teriam sido vitórias se não tivéssemos sido prejudicados. Portanto, há muita maneira de olhar para estes empates, mas depois, de uma maneira muito objetiva, eu diria que uma equipa que não está, nem nunca esteve, à frente do Campeonato precisa de ser resiliente, precisa de ser séria, precisa de ser honesta, precisa de ser respeitadora dos valores do clube, precisa de ser respeitadora dos sentimentos dos adeptos, e isto esta equipa representou sempre até agora, lutando sempre. Lá está, se não ganho, não perco, mas vamos com tudo até ao fim de cada jogo. Neste sentido, acho que é muito positivo. O lado negativo da coisa é exatamente nós olharmos para alguns jogos tipo Santa Clara em casa, Rio Ave em casa, Casa Pia fora, há alguns jogos em que nós olhamos e dizemos "isto são derrotas, isto não são pontos ganhos, são pontos perdidos". E pontos perdidos que depois na tabela têm obviamente significado. Depois há um aspeto que esconde um bocadinho a época com alguns contornos positivos que nós estamos a fazer, que é o facto de nós termos os mesmos pontos que o Benfica tinha na época passada, exatamente à mesma jornada, pontos esses que permitiram ao Benfica lutar pelo Campeonato até praticamente ao último minuto do último jogo, e que este ano, em função do número de pontos que o FC Porto tem feito, deixam o Benfica a 7 pontos do 1.º classificado. Ou seja, eu digo sempre que as classificações dizem muito sobre o teu mérito ou demérito, mas dizem também muito do mérito ou demérito dos teus adversários mais diretos. E o FC Porto, se eu não erro, tem 17 pontos a mais do que aquilo que tinha na época passada. O Sporting não terá 17, mas terá também 2 ou 3 ou 4, a andar por aí. Ou seja, nós tendo feito até agora uma época não boa, porque no Benfica épocas boas ganham Campeonatos, mas uma época que, em condições normais, estaríamos numa situação diferente. Se tu me perguntares diretamente se me dá muito prazer não ter derrotas até agora, não me dá muito, preferia ter um par de derrotas e menos empates e mais pontos, mas como eu dizia anteriormente, diz qualquer coisa sobre esta equipa, diz qualquer coisa de positivo sobre esta equipa.
"Objetivos são os de sempre: ganhar e, obviamente, respeitar a natureza, respeitar a essência daquilo que é um dérbi. Estes são dos jogos que menos preocupam ao nível motivacional, ao nível do foco, da atitude, da vontade de jogar" José Mourinho
Num tom menos filosófico, talvez mais leve, embora também sério, já disse que assinaria por 10 anos pelo Benfica. Gostava de saber se – como um político português há 25 anos que se candidatou para a Câmara Municipal de Lisboa, que também se tornou célebre pela "demissão irrevogável" – é capaz de dizer, "eu fico"?
Eu não, não posso dizer, como é que eu posso dizer uma coisa dessas? Porque não depende só de mim. É óbvio. Um treinador, um jogador, um diretor de imprensa, um roupeiro, um fisioterapeuta, todos nós numa estrutura de um clube – da mesma maneira como eu acho que, se calhar você, como jornalista da A Bola, não pode garantir que vai estar na A Bola nos próximos 10 anos. Não pode. Se calhar, você quer, mas você não pode garantir. Obviamente que não posso garantir.
Faço-lhe uma questão concreta sobre o jogo e das opções que o Benfica tem para a partida de amanhã [domingo]. Aursnes e Tomás Araújo já estão disponíveis para ir a jogo? Se sim, o que é que o meio-campo do Benfica ganha com o médio norueguês em campo?
O Aursnes... está, está. Treinou a semana toda, já viram que ele jogou 15 minutinhos no jogo contra o Nacional, o que foi, no fundo, o culminar de uma semana não a full time, mas o culminar de uma semana já de algum trabalho. E, depois, trabalhou esta semana toda sem qualquer tipo de limitação. Está bem, e está para jogar, e vai jogar. E o que acho que ele pode dar? Ele dá-nos muita coisa, depende da posição em que joga, mas dá-nos muita coisa. Uma das coisas que nos dá é equilíbrio. É um jogador de uma inteligência muito específica e importante, sabe ler o jogo como poucos, sabe jogar em diferentes posições, em diferentes contextos, em diferentes conceitos, e vai jogar, porque eu o considero um jogador fundamental. O Tomás [Araújo] treinou connosco sem limitação ontem [sexta-feira, 17 de abril] e hoje [sábado], e considero, apesar de termos amanhã [domingo] ainda uma breve sessão de manhã, que ele também está em condições de poder jogar.
"O Aursnes dá-nos muitas coisas. Uma das coisas que nos dá é equilíbrio. É um jogador de uma inteligência muito específica e importante, sabe ler o jogo como poucos, sabe jogar em diferentes posições, em diferentes contextos, em diferentes conceitos, e vai jogar, porque eu o considero um jogador fundamental" Esta época, os clássicos têm sido assim um bocado aborrecidos, muito fechados, sobretudo para os adeptos, porque, se calhar, para os treinadores até têm sido jogos ricos. Mas este clássico tem a particularidade das duas equipas terem de ganhar para cumprirem os seus objetivos. Espera um jogo mais aberto, mais espetacular, por isso?
Não sei, não sei. E se calhar não estou assim tão de acordo consigo. O jogo em casa com o FC Porto foi um jogo com quatro golos. Foi um jogo em que uma equipa foi dominadora, eu quase diria arrasadora, nos primeiros 20/30 minutos de jogo, e, depois, teve outra equipa que foi dominadora, quase arrasadora, nos últimos 20/30 minutos. Acho que foi um jogo forte de duas equipas fortes. O jogo com o Sporting, também na Luz, tem um bom começo do Sporting, em que se superioriza não só no marcador, mas também no próprio jogo. E, depois, foi um jogo em que eu acho que a partir dos 25 minutos o Sporting não voltou a rematar à baliza do Benfica. Em que o Benfica dominou, e dominou e dominou, apesar de não ter ganho. O jogo de Braga – porque o pessoal gosta muito de se esquecer do Braga, que é uma equipa de grande nível apesar de não estar perto dos três primeiros lugares – foi outro jogo com quatro golos – eu diria cinco, porque fizemos um golo que nos daria a vitória no jogo – e ultra animado. O jogo no Porto [Estádio do Dragão] é o único que termina 0-0. E esse jogo, sim, numa altura em que as duas equipas estavam ali ainda no primeiro terço do Campeonato, foi, se calhar, um jogo mais tático, mais calculista de parte a parte. Mas é o único jogo em que eu estaria de acordo com o seu comentário relativamente aos jogos entre as quatro grandes equipas.
Já agora, vou abusar um bocadinho das duas [perguntas], mas perguntava-lhe também por Richard Ríos. E, em relação ao Campeonato, se o Benfica não ganhar, o 2.º lugar também fica afastado?
O [Richard] Ríos está bem. Como eu disse a seguir ao jogo do Nacional, não me parecia uma coisa preocupante. Como eu dizia também, tenho medo de músculos, tenho medo de joelhos, tenho pouco, ou menos medo, de tornozelos. Portanto, nada. Não treinou o primeiro dia da semana e, a partir daí, treinou full time, sem qualquer tipo de problema. É a velha história da matemática. A faltarem quatro jogos para o final do Campeonato, a estarem 12 pontos em disputa, se nós não ganharmos, matematicamente ainda será possível. Mas, apesar de me terem trucidado pela minha honestidade e pelo meu pragmatismo, eu continuo a repetir que uma coisa é a matemática pura e outra coisa é o pragmatismo dos números. Eu acho que, se nós não ganharmos o jogo – vamos dar tudo até ao final, enquanto for matematicamente possível, vamos atrás; se deixar de ser matematicamente possível, continuamos a ir atrás daquilo que é a natureza e a história do clube – ficará, obviamente, muito mais difícil. Agora, prefiro ser otimista e pensar que amanhã [domingo] podemos ganhar.
"Todas as outras equipas tiveram jogos muito difíceis com o Benfica. Mesmo as equipas que empataram podiam ter perdido. Quero acreditar nesta linha de comportamento." Já disse aqui que não pode garantir que fica, mas o Presidente [Rui Costa] também já disse que é um não tema, porque vai continuar na próxima temporada...
Então é um não tema.
Então, porquê este impasse?
Qual impasse? Desculpa lá. Já falei para aí há dois meses sobre essa situação. Já falei há 15 dias. Já falei na semana passada. Arranja aí outra perguntinha, que esta não tem mais nada para dizer.
Então porque é que não garante que fica?
Porquê é que não garanto que fico? Tu podes garantir que ficas na RTP para a próxima época?
Posso, porque ninguém me quer [muitos risos na sala]. É fácil responder a isso. Ficamos assim, então?
Ficamos [mais risos].
Eu não sou como o José Mourinho, que é pretendido em Inglaterra, Espanha e por aí fora...
Se calhar é mentira.
"Aquilo que posso tentar fazer é tentar reduzir ao máximo a imprevisibilidade daquilo que é a natureza de um jogo de futebol. Foi aquilo que fizemos durante a semana: tentar trabalhar diferentes conceitos, diferentes cenários, e estarmos o melhor preparados possível para o jogo" Então tenho direito a outra pergunta. Tendo em conta que o Sporting tem jogado melhor, pelo menos nos últimos jogos – acho que isso é claro –, o que é que o faz acreditar que consegue ir a Alvalade e ganhar o jogo?
O que é que me faz acreditar? Faz-me acreditar na nossa história no Campeonato, que somos uma equipa difícil para qualquer adversário. Ainda nenhuma equipa conseguiu ter um jogo fácil contra nós. Eu diria que a equipa que teve o jogo mais fácil contra nós foi o Casa Pia. Todas as outras equipas tiveram jogos muito difíceis com o Benfica. Mesmo as equipas que empataram podiam ter perdido. Quero acreditar nesta linha de comportamento. Quero acreditar nesta linha de competência no nosso nível competitivo. Quero acreditar no trabalho que fizemos durante esta semana. Não tenho razão nenhuma para não acreditar. Estando absolutamente de acordo contigo, quando dizes que o Sporting está bem, está muito bem, está a jogar muito bem e que fez agora recentemente dois jogos muito bons na Champions [frente ao Arsenal]. Obviamente temos de ser pragmáticos, e coerentes e até humildes, no sentido de reconhecer que vamos ter um jogo muito difícil. Com um dérbi que... e eu não sou propriamente um top em estatísticas, mas parece-me que o Benfica há muito tempo que não ganha o dérbi de Alvalade. Mas vamos lá para ganhar.
Que diferença espera face ao jogo da 1.ª volta e o que espera também da arbitragem de João Pinheiro, que já mereceu algumas críticas suas no passado?
Mas eu só critico os árbitros depois dos jogos, não critico antes. Eu, antes, dou sempre a maior confiança aos árbitros, não me parece correto duvidar seja da competência, seja muito menos na honestidade de cada um deles. Eu antes dos jogos, para mim, vir o João Pinheiro, ou vir o [Fábio] Veríssimo, ou qualquer um deles, dá-me exatamente igual. Antes do jogo não digo nada; depois do jogo sinto-me na liberdade de poder analisar e dizer: gostei, gostei pouco, não gostei, achei que falhou aqui. Mas, antes do jogo, nada. Portanto, a nomeação do João Pinheiro não me diz nada, nem de positivo, nem de negativo. Para mim, ser o João Pinheiro ou ser o outro árbitro, a mim, não me diz grande coisa. [E as diferenças em relação à primeira volta?] Não sei, é muito difícil. Lá está, aquilo que é o dérbi, nós podemos tentar contextualizar o dérbi no sentido de o Sporting precisar de ganhar, o Benfica precisar de ganhar, o empate, a única coisa que dará é ao Sporting uma maior segurança relativamente ao 2.º lugar, mas, se calhar, é uma coisa que não lhes interessa. Se calhar, aquilo que é verdadeiramente o foco do Sporting é ganhar o Campeonato e ganhar o título. Mas independentemente de todas estas variantes, dérbi é dérbi, e não consigo imaginar aquilo que possa acontecer. Aquilo que posso tentar fazer é tentar reduzir ao máximo a imprevisibilidade daquilo que é a natureza de um jogo de futebol. Foi aquilo que fizemos durante a semana: tentar trabalhar diferentes conceitos, diferentes cenários, e estarmos o melhor preparados possível para o jogo.













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