"Tantas coisas estranhas têm acontecido neste Campeonato"
De regresso às contas do Campeonato, após a paragem competitiva para os compromissos das seleções nacionais, o Benfica enfrenta o Casa Pia às 20h45 de segunda-feira, 6 de abril, no Estádio Municipal de Rio Maior.
Na antevisão do jogo referente à 28.ª jornada da Liga Betclic , José Mourinho referiu que os encarnados vão entrar em campo para vencer diante de um adversário com uma "identidade de jogo muito própria" e que irá batalhar pelos pontos.
O treinador das águias esclareceu que Aursnes continua de fora das opções e que Barreiro foi o único atleta do coletivo que chegou das equipas nacionais com um "problema". A decisão de utilizar o médio luxemburguês será tomada depois do treino deste domingo, 5 de abril, segundo deu conta José Mourinho.
Além de ter abordado questões relacionadas com a atualidade do futebol nacional, o técnico do Benfica enalteceu ainda os cinco laterais que tem à disposição, referindo-se a Daniel Banjaqui e José Neto como jogadores de "enorme potencial" e "da primeira equipa".
Como é que estão os jogadores que estiveram por estes dias ao serviço das seleções e como é que perspetiva este encontro com o Casa Pia, a única equipa que, no Campeonato Nacional, venceu o FC Porto? Dos jogadores que vieram das seleções, só o Barreiro é que vem com um problema. Neste momento, ainda não posso confirmar se ele pode jogar na segunda-feira, ou não. O motivo pelo qual fizemos a conferência de imprensa agora [10h00 de sábado] não é para fugir a nenhuma pergunta desse tipo, é simplesmente pensando que amanhã [domingo] nós trabalhamos, mas muitos de vocês provavelmente não, e então resolvemos fazer hoje, não é para fugir a essa pergunta. A verdade é que neste momento o Barreiro, desde que voltou, ainda não treinou. Vai hoje ao campo a primeira vez e, obviamente, condicionado, e amanhã, depois do treino, já decidiremos se ele está em condições de jogar, ou não. O Casa Pia tem recuperado muito bem desde que o novo míster chegou. Tem uma identidade de jogo muito própria, capaz de criar dificuldades às equipas – vamos lá dizer, com respeito, não é sem respeito – mais fortes. Mesmo antes da sua chegada, bem sei que de uma maneira estranha, como tantas coisas estranhas têm acontecido neste Campeonato desde o início, não só ultimamente, desde o início também... Mas o Casa Pia, apesar de ter sido um jogo com coisas estranhas, conseguiu-nos tirar dois pontos no jogo que fizemos no Estádio da Luz. Obviamente, na sua casa, ainda que emprestada, mas é a sua casa, é o seu habitat natural, vão seguramente lutar muito pelo... eu diria pelo ponto, mas, pelas suas características, pela maneira como jogam, pelos pontos, porque são uma equipa capaz de entregar o domínio do jogo ao seu adversário e depois punir com base nas características que têm. Por isso, esperamos um jogo difícil, mas, mais uma vez, vamos tentar ganhar.
Peço-lhe uma opinião sobre o que está a acontecer: o conflito entre o Sporting e o FC Porto. De que forma é que considera que o Benfica possa beneficiar disso? Ou se, por outro lado, considera que é algo desnecessário para o futebol português.
O Benfica beneficiar? O Benfica? Desde o início da época já viu o Benfica beneficiar nalguma coisa? Eu ainda não vi. Eu ainda não vi. Às vezes, ouço falar nas lufadas de ar fresco, e eu estava a preparar-me para tentar, num aspeto, poder ser uma lufada de ar fresco: que era a minha equipa ganhar com erros arbitrais e eu sair e dizer... ganhámos 3 pontos, mas... erros a nosso favor. Ainda não me aconteceu, e espero que não me aconteça, honestamente, espero que não me aconteça. Mas, se eventualmente acontecer, deixo já aqui o desafio, eu vou sair e vou dizer que o Benfica foi beneficiado. Portanto, o Benfica beneficiado não consigo entender em quê. E, nessa situação entre os dois presidentes do Sporting Clube Portugal e do Futebol Clube do Porto, já disse aqui há um par de semanas que, em situações entre presidentes, eu sou um mero espectador, e não, não. Entre treinadores, sim, entre presidentes, não.
"O fator imbatibilidade é orgulho. Tem significado até agora o carácter de uma equipa que tenta respeitar a história, o sofrimento inerente aos maus resultados que qualquer adepto sente, e, mesmo em situações limite, temos lutado sempre para conseguir bons resultados" José Mourinho
Após o jogo de ontem [sexta-feira, 3 de abril], o Benfica avançou prontamente uma publicação na rede social X em que lançava alguns vídeos do Sporting-Santa Clara, com a vitória do Sporting por 4-2, debaixo da frase "Já nem há vergonha". Concorda com a frase?
Num mundo de puxa-sacos, eu também vou ser puxa-saco. Também vou dizer que estou a 100% de acordo com o meu Presidente, que é o que os outros fazem.
O Casa Pia foi a equipa contra a qual o Benfica perdeu o último jogo para o Campeonato (em 25 de janeiro de 2025). Este fator invencibilidade, que está na equipa, que pode acabar o Campeonato sem derrotas, será um fator de motivação para os jogadores, ou será uma pressão extra e, por isso, irá proteger os jogadores desse aspeto?
O fator imbatibilidade é orgulho. Tem significado até agora o carácter de uma equipa que tenta respeitar a história, o sofrimento inerente aos maus resultados que qualquer adepto sente, e, mesmo em situações limite, temos lutado sempre para conseguir bons resultados, e às vezes o empate acaba por ser o mal menor. Se me perguntar se preferia ter duas derrotas em vez de oito empates, obviamente eu preferiria ter duas derrotas em vez de oito empates, ainda que inerente às derrotas exista sempre aquela coisa de, principalmente quando acontecem em jogos que não se esperam... Numa época, uma equipa acaba sempre por ter uma escorregadela ou duas contra equipas de menor expressão. É um bocadinho o nosso orgulho. Mas nós não jogamos para não perder jogos, nós jogamos para ganhar, e qualquer empate que se consiga acaba por não ser um bom resultado. Mesmo com o FC Porto, o Sporting e o SC Braga, que são equipas do topo, os empates não os considerámos bons resultados. Imagine os empates que tivemos com o Santa Clara, com o Casa Pia... Não termos perdido até agora, significa qualquer coisa em termos da nossa qualidade, do nosso profissionalismo e do nosso respeito pelo Benfica.
Questionado sobre o futuro, Otamendi não garantiu se ficava no Benfica além desta temporada. O que eu lhe pergunto é: enquanto treinador, acha que é a altura certa para deixar sair o argentino e fazer uma renovação na defesa, digamos assim, ou se dependesse unicamente de si, Otamendi ficaria pelo menos mais um ano? Além desta pergunta, se me permite, gostaria de perguntar se Aursnes está recuperado para jogar com o Casa Pia. Não, Aursnes não está recuperado. O "se" não existe, ou sai, ou não sai. O se sai ou se não sai, neste momento, não existe. Penso que foi o Presidente que nalguma intervenção sua foi objetivo relativamente ao Otamendi: a decisão da saída ou da permanência é uma coisa que está mais nas mãos do jogador do que propriamente do Benfica. E se o Benfica estará preparado para a saída de um jogador como o Otamendi? Estará, no sentido em que tem dois grandes centrais, o António [Silva] e o Tomás [Araújo], jovens, jogadores de seleção, com muita experiência de Benfica, com braçadeira de capitão quando não está o Fredy [Aursnes] ou, principalmente, o Otamendi, e são dois jogadores nos quais eu tenho a maior confiança. Portanto, na próxima época, se não estivesse – lá estou a voltar ao seu se, que eu queria evitar –, se não houvesse Otamendi, António e Tomás dão garantias, mas obviamente o Benfica teria de ir ao mercado para colmatar a saída de um jogador com a capacidade do Otamendi, com a experiência, com a liderança.
Hjulmand, capitão do Sporting, deu uma entrevista na qual comentou uma situação que José Mourinho já tinha referido: a relação especial que o capitão do Sporting tem com as arbitragens. Ainda sobre este tema – recorrente, mas incontornável, sobretudo nesta reta final do Campeonato –, os constantes casos de arbitragem relacionados com os jogos do Sporting, que o Benfica tem apontado: José Mourinho olha para isto como falta de competência dos árbitros nesses lances, ou identifica aqui, realmente, uma tendência de benefício em relação aos adversários, e sobretudo ao Sporting?Relativamente ao Hjulmand, as declarações que ele fez foram extremamente educadas. Portanto, não há aqui nenhum problema, obviamente, pessoal. Mas, de facto, é um caso a pensar muito relativamente aos próximos jogadores estrangeiros que possam entrar no Benfica na próxima época. Porque, normalmente, quando um jogador chega a um país estrangeiro e quer aprender a língua, quer aprender o idioma, é uma coisa que acho que, enquanto portugueses, elogiamos: quando eles vêm para cá e, passado pouco tempo, conseguem falar português – uma coisa com a qual eu me preocupei sempre quando fui treinador no estrangeiro. Mas, normalmente, os objetivos são uma melhor integração social, numa nova sociedade, num novo país; fazermos melhor o nosso trabalho no relacionamento com os nossos colegas – com aqueles com quem trabalhamos –, uma melhor comunicação, não só com a população do país, mas fundamentalmente com a população da nossa cor, uma interação melhor. Mas o motivo pelo qual queremos aprender um idioma é para comunicarmos melhor com os árbitros, eu acho que é verdadeiramente uma coisa fantástica, e que, se calhar, quando os jogadores do Benfica na próxima época aqui chegarem – se chegar algum jogador estrangeiro –, será essa a nossa motivação: tentar "forçar" a aprender português rapidamente para podermos falar muito bem com o árbitro. Portanto, realmente, acho que é uma situação fantástica. A outra pergunta que me fez... Hoje [sábado, 4 de abril], por acaso, cheguei aqui ao Benfica, e como sempre só há uma pessoa que chega antes de mim, que é o Gonçalo [Guimarães], e, passando pelo gabinete do Gonçalo, vi a primeira página dos dois jornais mais tradicionais, mais históricos no desporto português, um dos quais é o seu [A Bola], e quando vi a primeira página pensei: não se passa nada. São páginas lindíssimas, com um miúdo que jogou [Rafael Nel], que foi aniversariante, que fez golo. São duas páginas bonitas, mas são duas páginas que fazem com que quem não tenha visto o jogo de ontem [Sporting-Santa Clara] pense que não aconteceu nada. E é nesta base do parece que não acontece nada que já vimos desde o início da época. E esse é que é o problema, porque agora também nos estamos a focar no que está a acontecer recentemente, mas esquecemo-nos do jogo no Nacional da Madeira; esquecemo-nos do jogo em Famalicão; esquecemo-nos do jogo em Alvalade com o Famalicão; esquecemo-nos de muita coisa que vem desde o princípio da época. Portanto, eu não sei muito bem aquilo que lhe deva dizer, mas... focando-me só e tão-só, para já não ir mais longe, em 3 jogos contra o Santa Clara – dois para o Campeonato e um para a Taça [de Portugal] –, está tudo aí.
"[Gestão dos laterais] Ter estes cinco jogadores, dos quais três são homens e dois são miúdos de enorme potencial, não é um problema, é um privilégio" A propósito da eventual saída de Otamendi, disse que há Tomás Araújo e António Silva. Conta, então, ficar com esses dois centrais para a próxima época?
Claro, claro que sim. Têm contrato os dois, são dois jogadores importantes para o Benfica. Eu, enquanto treinador – e só como treinador e não como gestor –, e fechando-me tão-só naquilo que eu sou, que é treinador, obviamente quero ter os melhores jogadores possíveis. Portanto, obviamente que sim, que gostava que ficassem os dois. O Presidente sabe, o diretor Mário Branco também sabe, mas obviamente que eu sei em que ano é que estou. Não estou em 1960 nem em 1980, sei em que ano é que estou, sei o que são mercados, sei o que é financial fair play, sei todas as situações no futebol atual, e como treinador não me posso fechar numa zona que é minha e não compreender outras zonas que não são minhas diretamente, mas acabam por ser minhas de um modo indireto. Portanto, se eventualmente chegarmos a uma situação no mercado em que o Benfica tenha de ou queira vender um jogador dos quais eu considero importantes na continuidade, não será um drama, terei obviamente de aceitar e depois tentar organizar-me de outra maneira. Mas a sua pergunta, muito, muito, muito objetiva, que foi muito objetiva, se gostava de ficar com o António e com o Tomás e se espero que eles continuem: sim e sim.
Já sei que não vai comentar a relação dos presidentes, mas na sequência do encontro com a ministra do Desporto, o treinador do Sporting, ainda na antevisão do jogo, disse que se calhar era preciso crescer um bocadinho para o futebol português melhorar. Concorda com essa visão?
O Rui é muito inteligente, mais do que aquilo que as pessoas pensam.
Gostava de entrar no âmbito do contrato profissional de Daniel Banjaqui, renovado há poucos dias. Trata-se de uma posição em que o Benfica está muito bem servido. Banjaqui é uma jovem esperança do Benfica, lançado por si na equipa principal, e para o mesmo lugar tem Dedic, que está a fazer uma época muito boa – e qualificou-se para o Mundial pela Bósnia e Herzegovina –, e Bah, que recuperou muito bem, e ainda agora fez 120 minutos pela Dinamarca. Para si, enquanto treinador e com a sua tremenda experiência, acaba por ser um desafio gerir a utilização de três jogadores de tanta qualidade, que estão, obviamente, a lutar por um lugar?
Fácil, é fácil de gerir. Difícil de gerir é quando não os temos. Quando os temos, é fácil de gerir. Neste momento, porque considero o Banjaqui e o [José] Neto jogadores da primeira equipa, nós temos cinco laterais para duas posições, assim de um modo muito objetivo, em que um deles tem 17 anos e outro tem 18 recém-celebrados. Ou seja, temos três homens e dois miúdos. Dois miúdos de grande potencial, dois miúdos que, sim, não fui eu que os desenvolvi, mas fui eu que lhes dei a confiança de. Ter estes cinco jogadores, dos quais três são homens e dois são miúdos de enorme potencial, não é um problema, é um privilégio. Em condições normais – lá está, há sempre as anormalidades que podem acontecer nos mercados atuais e na maneira como os clubes gerem os seus plantéis, os seus ativos... Se perguntar ao treinador, e se o treinador for só treinador, eu acho que é a situação ideal para o Benfica na próxima época ter os três homens e os dois miúdos, que cada vez menos vão sendo miúdos, cada vez mais vão sendo homens e cada vez mais vão estando preparados a 100 por cento, e eventualmente no final da próxima época o Benfica já possa olhar de forma diferente para esse grupo de cinco jogadores.













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